O “Sim à vida” através dos pais e através dos antepassados é, para muitos pacientes, um processo difícil. Alcança-se através do assentimento aos pais tal qual como eles são e assentindo também à história da família em cujo seio nascemos. Este processo é conseguido independentemente do contacto ou da qualidade da relação com os pais ou avós. Ele é também um processo possível para quem não conhece nem os seus pais, nem as suas famílias, já que nele se pode assentir à sua própria pessoa, ao seu destino pessoal e à situação de vida na qual se encontra. (…) A experiência mostra que frequentemente o primeiro passo para a solução de um problema ou para a cura de uma doença é o de assumir a parte de responsabilidade própria nesse tema. Segundo a minha observação, a força para este passo está relacionada com a disposição para assentir aos pais e à própria família de origem. Este “Sim” aos pais e à família é como um “Sim à vida” e para mim, como terapeuta, uma condição prévia para que eu concorde em realizar uma constelação com um paciente. A minha experiência no trabalho com constelações com doentes é a de quando um paciente não está disposto a dizer “Sim” à sua situação actual, frequentemente sequer está disposto, ou não é capaz de aceitar aquilo que na constelação se mostraria como movimento em direcção à solução. Nestas circunstâncias, trabalho primeiro a capacidade e a disposição do paciente para este “Sim”.
Texto extraído de Stephan Hausner (2011). Aunque me cueste la vida: Constelaciones sistémicas en casos de enfermedades y síntomas crónicos. Alma Lepik Editorial
Para se ser feliz não precisamos de acrescentar nada, pelo contrário, temos de subtrair: largar imagens interiorizadas, despedir-nos de ideias pré-concebidas, soltar visões cristalizadas que infalivelmente deturpam, nos afastam do outro e da realidade, em suma, desaprender.
A felicidade é o nosso estado natural, se nos permitirmos dizer o grande Sim. Contudo…
Aderir incondicionalmente à realidade não é tão fácil, dado que as nossas imagens interiores estão sempre presentes, lutando contra a própria realidade e impedindo que ela nos sustente e que a ela nos entreguemos. (Joan Garriga, 2014)*
O apego às imagens é um estado emocional que nos faz acreditar que se a realidade não for de tal ou tal forma, não conseguiremos ser felizes; coloca-nos num estado de permanente reactividade, de divergência, que gera ainda mais imagens.
E como conseguimos passar de um estado ao outro? Pondo-nos em contacto com as nossas imagens interiores, relacionando-nos com as nossas experiências emocionais, sobretudo as mais sombrias.
Se conseguirmos afastar um pouco essas imagens interiores (abra-se parênteses, retirar-lhes o painel de controlo), a realidade vem ao nosso encontro tal qual como é e a todo o instante. (Ibid.)
Isto exige-nos um perseverante processo de tomada de consciência, portanto, de contacto com, e de desapego, na sequência do qual a mudança ocorre de modo natural e sem esforço, sobretudo sem o esforço da vontade.
E tomando-a [à realidade], agradecemos; e agradecendo a tomamos. E então estaremos profundamente de acordo em ser quem somos, tal como somos, a cada momento. E assim entregamo-nos e expandimo-nos cada vez mais e com isso servimos e sentimo-nos apoiados. (Ibid.)
Sábios, filósofos, teólogos e místicos de todos os quadrantes tentam ensinar-nos isto. Apenas podem apontar-nos a direcção, pois a vivência não se pode obter pelas palavras. Se assim fosse, mais não seria que (mais uma) programação.
O ponto de partida das constelações familiares é a projecção das imagens internas que a pessoa tem sobre as suas relações pessoais e sobre o lugar que ocupa nos pequenos grupos a que pertence. A mudança psicológica que o processo das constelações familiares põe em marcha ocorre por via da transformação das imagens internas. É uma experiência tocante, levando ao contacto com as imagens interiores, produz compreensão (muitas vezes súbita) do sentido de determinados comportamentos e situações repetitivas em que a infelicidade radica.
Nos dias 29 e 30 de Junho de 2024, Joan Garriga estará no Porto para conduzir um workshop de constelações intitulado “Constelar a Vida”, título também do seu mais recente livro – Constelar la Vida (2024) -, onde irá abordar os grandes temas da viagem da vida, as constantes que pautam a nossa viagem existencial: vínculo, reciprocidade nas relações e lugar de pertença de cada um.
Junte-se a nós nesta jornada de descoberta com este psicoterapeuta que com perspicácia e bom humor tão sabiamente facilita o trabalho da constelação.
Eva Jacinto, 05 Junho 2024
* Joan Garriga (2014). La llave de la buena vida. Saber ganar sin perderse a uno mismo y saber perder ganando a uno mismo. Ed. Destino. (Texto traduzido por Eva Jacinto)
Um workshop aberto a todos. Apropriado para pessoas interessadas no seu desenvolvimento pessoal, para pessoas que desejem trabalhar assuntos problemáticos das suas vidas, tais como dificuldades nos relacionamentos (familiares, de casal, laborais), temas relativos a doenças, luto, comportamentos aditivos, difíceis ou destrutivos, padrões de infelicidade, etc. Indicado também para pessoas que se dedicam a profissões de ajuda e que tenham interesse em aprender sobre a abordagem da visão sistémica e das constelações familiares com utilidade para o seu trabalho.
Brevemente estarão disponíveis as inscrições para o workshop de constelações familiares dirigido por Joan Garriga no Porto, nos dias 29 e 30 de Junho 2024.
Subscreva as novidades do site (ao fundo desta página) para receber as notícias.
Há, portanto, uma dialéctica básica entre a realidade e o eu (ou a mente que se infiltra colonizando e tomando posse por completo do eu). É uma arte conseguir que essa dialéctica se converta num diálogo criativo e fértil que nos impulsione e nos leve por caminhos de alegria e não de infelicidade. Por caminhos de vida e não de morte. Joan Garriga (1)
Há precisamente uma semana, noventa e cinco pessoas vieram ao Porto para participar num workshop de constelações familiares, magistralmente conduzido por Joan Garriga – um dos psicólogos mais influentes em Espanha e na América Latina e um dos mais brilhantes psicoterapeutas a manejar esta ferramenta – constelações familiares. Noventa e cinco presentes, muitos mais os convocados. Com efeito, Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma? (O. Wilde, 2).
Com o que é que trabalhamos quando trabalhamos com as constelações familiares? Com enredos, implicações sistémicas, intricações despercebidas, férreas lealdades, desordens, realidades por integrar, interacções infelizes. Uma palavra que enquadre tudo isto – relações.
Segundo o dicionário, uma constelação é “um grupo de estrelas fixas que, ligadas por linhas imaginárias, formam também uma figura imaginária, a que corresponde um nome especial”(3). Continuando com a analogia, qual é aqui este nome especial? É o assunto-problema do cliente, tal como ele o configura (constela). O cliente tem de descrever o seu problema da forma o mais factual e concreta possível e plasmá-lo de forma espacial e corpórea. Através desta técnica, o cliente é convidado a sair dessa “caixa” de explicações, justificações e projecções que vai contando a si próprio e que o inebria. Por essa razão, vemos como com delicada firmeza e argúcia, Joan Garriga atalha sempre que o cliente quer descrever, com requintes de detalhe, o seu sofrimento, caracterizar o outro, contar-nos a sua narrativa da história do problema, a qual, se fosse fecunda, já o teria apartado do problema.
Trabalhando no aqui e agora da manifestação fenoménica, a técnica de Joan Garriga estimula a compreensão profunda e a transformação; não permite perder tempo com abstracções e intelectualizações, sabe levar o cliente a centrar-se no seu processo. Mas não é só o cliente que se entrega: todos os participantes se sentem estimulados a envolver-se activa (mas silenciosamente) nos processos que se desenrolam à sua vista, compreendendo e crescendo por processos de empatia e ressonância que impulsionam a reconhecer-se.
O campo vai permitindo a manifestação das dinâmicas. Uma espera atenta, a participação silenciosa de todos os presentes faz-se sentir, agora Joan opera como um transdutor: com inteligência e sensibilidade vai revelando os sentidos. Com mestria abre e mantém o diálogo com o cliente, aborda com perspicácia e muitas vezes com bom humor os assuntos que o cliente tem persistido em evitar.
Vários psicoterapeutas de renome têm afirmado que o instrumento mais importante de um terapeuta é a sua própria pessoa. Joan Garriga atingiu esse ponto que tal como Irvin Yalom (4) formula: estar familiarizado com o seu próprio lado obscuro, capacita para empatizar com todos os desejos e impulsos humanos. Por isso adoramos aprender, curar e crescer com Joan Garriga.
Nota final: sabemos como é agradável (e voyeurista) ver fotografias de eventos como este. No entanto, e considerando que somos uma comunidade pequena, parece-nos que perder esse pequeno prazer compensa face ao respeito e à protecção que as pessoas que tiveram a coragem de trabalhar o seu problema em grupo, merecem. Ao expor o seu problema ao grande grupo possibilitaram assim que muitas pessoas obtivessem benefícios através delas. Nunca é de mais agradecer-lhes, preservar a confidencialidade é imperioso. Por isso, não há fotografias de grupos de pessoas com caras alegres e felicidade estampada no rosto ou de representantes tomados pelo campo. Gostamos que seja assim.
EVA JACINTO, 05 Março 2023
Referências
1 Joan Garriga (2021). Decir Sí a la Vida. Ganar Fortaleza y Abandonar el Sufrimiento. Ediciones Destino
2 Oscar Wilde (1897). De Profundis. Relógio d’ Água (2001)
3 Novo Dicionário Lello da Língua Portuguesa (2011). Lello Editores
4 Irvin Yalom (2009). The Gift of Therapy. Harper Collins.
De uma forma muito simples as constelações expõem um destino no seu contexto, com as suas consequências. Ajudam a “ver” a realidade na existência do cliente e, sendo possível, a preenchê-la de amor, sem pretender influir no que o cliente irá fazer com a sua vida a partir desse conhecimento. Os facilitadores não acompanham, ou fazem-no muito pouco. Não intervêm através de tarefas nem estratégias de controle (embora muitos terapeutas que constelam também ofaçam). As constelações oferecem uma visão libertadora do destino actual e ajudam de uma forma sã a pôr ordem nas relações, fazendo-o de modo a que fomente o crescimento e conceda força mediante a aceitação dos pais e dos antepassados. Desta forma confia-se na capacidade própria do cliente para lidar, de maneira responsável e competente, com aquilo que foi “visto”.
Jakob R. Schneider (2009). Constelar familias. Fundamentos y procedimientos. Herder. (Traduzido do castelhano por Eva Jacinto).