Psicólogo e gestaltista, Joan Garriga é um referência mundial das constelações familiares,. Integra na sua prática e ensino elementos de filosofia, ética e espiritualidade, que expandem e enriquecem a abordagem psicológica tradicional da terapia.
Este é um convite para quem deseja cimentar as suas aprendizagens, tanto na teoria como na prática.
Neste workshop vamos poder aprender com Joan Garriga a olhar o cliente de forma mais ampla, dentro do contexto dos seus sistemas de relações, e a depurar a atitude que o terapeuta deve ter na relação de ajuda, isto é, no encontro de adulto para adulto. Vejamos como ele aborda este tema:
“O encontro terapêutico não estabelece assimetrias significativas para além dos papéis que cada um assume; nas constelações, além disso, procura-se que a dinâmica se estabeleça num encontro entre duas pessoas igualmente adultas.
Hellinger definiu esta forma de se encontrar com o consulente através de um conceito que denominou “as ordens da ajuda”, o qual se pode resumir da seguinte maneira:
Tanto o terapeuta como o consulente são adultos igualmente responsáveis.
O terapeuta observa o cliente dentro do contexto mais amplo das suas relações.
É respeitoso com os factos, a história e o destino do consulente.
Entrega o que é e o que tem, só em resposta ao que o outro pede e unicamente aquilo que ele pode tomar e necessita.
Opera sem juízos, com plena aceitação do ser do outro” (Joan Garriga, Constelar la Vida, p. 149)
As “ordens do amor” descritas por Hellinger - que resumidamente se podem enunciar como pertença, hierarquia e equilíbrio - são fáceis de compreender e até de assimilar, mas não foi intenção do seu autor criar um código de conduta, uma grelha diagnóstica ou uma fórmula para correcção das relações.
Vejo-as como uma heurística valiosa: a sua utilização deve manter-nos sempre nesse estado de indagação aberta, um não-saber e não-compreender, no centro vazio onde o movimento pode surgir. Como se incorporam na prática
Joan Garriga articula-o assim:
“Costumo dizer que existem cinco perguntas que me guiam em cada consulta. Estas cinco questões, que considero uma forma de aplicar a teoria das ordens do amor ao trabalho prático em constelações, são as seguintes:
O que ou quem tem de ser integrado no coração do sistema para evitar que alguém sofra ao representá-lo?
Que lugar devemos ocupar claramente, para evitar inquietações e sofrimentos para todos?
Que equilíbrio na relação deve ser restabelecido ou reequilibrado para que ninguém tenha problemas?
Que destinos devem ser respeitados para evitar a sua repetição?
O que é que estava separado e agora necessita ser unido e reconciliado?” (Joan Garriga, Constelar la Vida, p. 106)
Este é um workshop vivencial, o que significa que aprenderemos a partir dos casos e situações que se apresentem. Será dada a possibilidade a todas as pessoas que o queiram fazer de se proporem a colocar o seu tema. Quem constela proporciona aprendizagens a todos os participantes que se encontram no círculo.
É um workshop adequado a quem queira continuar a amadurecer a sua prática terapêutica, mas também para qualquer pessoa interessada em conhecer e experimentar esta técnica transformadora.
As constelações são uma ferramenta que ajuda o cliente a ir ao encontro da sua verdade. Contudo, “não são uma panaceia, se não se fizerem acompanhar de um processo terapêutico sólido ou de uma decidida vontade de crescer como seres humanos e em desenvolver a nossa consciência.” (Joan Garriga, Constelar la Vida, p. 91) dificilmente levarão à transformação desejada.
E porque toda a transformação carece de um movimento de assentimento, ASSENTIMENTO É FELICIDADE é o mote que escolhemos para este encontro presencial ímpar.
Impressões sobre o workshop de Joan Garriga “Constelar a Vida” no Porto, nos dias 29 e 30 de Junho 2024.
Por dois dias suspendemos o quotidiano, imersos noutro mundo, mundos de outrem, onde nos reencontramos, recompondo e incorporando partes. Vivências de onde vamos saindo lentamente. De um workshop com esta intensidade raramente se sai dele no dia seguinte.
O magnetismo das constelações em parte está no facto de deixar uma impressão que não é meramente mental, fica gravada na emoção e no corpo, leva a uma compreensão que arrebata. Tal acontece no contacto com o que é doloroso. Quanto mais tentamos buscar fora de nós, tanto mais encadeados e cegos permanecemos, teimosamente evitando compreender que é no atravessar da dor que se pode tocar a felicidade. Somos sempre escravos daquilo de que não temos consciência. Tornando-nos conscientes, tornamo-nos livres, no sentido em que já não somos afectados por; a dor já não nos escraviza.
“Sofremos porque padecemos da falta de presença e porque há espaços vivenciais dentro de nós que estão excluidos ou escindidos da nossa atenção. Excluimos a tristeza ou a raiva; excluimos a dor pungente que sentimos face a um abuso; excluimos muitas coisas que percebemos como difíceis, dolorosas e desagradáveis ou que não encaixam com o que se espera de nós ou com a nossa auto-imagem idealizada. Excluímos também, afastando-as da nossa consciência, sensações corporais.” (Joan Garriga1)
E assim fomos constelando vidas neste workshop, pela impecável mão de Joan Garriga. Ali onde se cala, onde a dor não se sabe, onde não se vê a saída do labirinto, com amor, atenção e presença Garriga entra em ressonância, aponta cirurgicamente o que está escindido. E as frases surgem-lhe de forma natural e eficiente, incentivando o reconhecimento.
“Eu não faço constelações, acompanho o cliente durante a constelação”, afirmou Joan Garriga. As constelações em si não são nada, senão pelo diálogo que permitem estabelecer entre terapeuta e cliente: um meio de confrontar a identidade que se teceu na trama da rede dos vínculos de cada um; sondar a narrativa interiorizada, desconhecida de tão repetida. Acompanha o cliente ajudando-o a habitar-se mais completamente, conduzindo-o ao ponto onde pode crescer.
Por mais que se pretenda querer atribuir “causa sistémica” ao sofrimento (consistindo esta tentativa, muitas vezes, numa forma mais de distanciamento) é no próprio que a dor tem de fazer eco, ressoar até à sua assimilação.
Significa que o cliente em constelações, a pessoa que quer constelar uma questão pessoal, está disponível para este acto corajoso de prestar atenção às suas emoções, sensações e juízos e para suspender, ainda que temporariamente, os automatismos egóicos que lhe permitiram fintar a dor. E dando à dor utilidade, acolhe a oportunidade de compreender e crescer com ela. Por isso é tão importante ter clareza sobre o problema que se quer trabalhar, evitando cair em falsas memórias, auto-enganos e ideologias que afastam a verdade.
E "(…) que pode ser melhor para quem procura psicoterapia que esta forma de revelação súbita e minuciosa, sem ser descritiva. À semelhança do haiku, que Octavio Paz2 disse ser uma espécie de “poesia desenhada”, esta técnica revelava-se uma psicologia gráfica, convocando a um entendimento sincrético, poupando-nos o embaraço de explicações confusas, de intelectualizações. Fascinante!” (Eva Jacinto3).
1 Joan Garriga e David Barba (2024). Constelar la vida. Del amor ciego al amor lúcido. Ediciones Destino.
2 Octavio Paz e Eikichi Hayashiya (tradutores e editores) (1992). Matsuo Bashô. Sendas de Oku. Benrrido.
3 Eva Jacinto (2020). Transitando Consciências. Memória de Processo Pessoal de Aprendizagem para Aceder a Membro Facilitador Titular da AECFS - Asociación Española de Constelaciones Familiares y Sistémicas (não publicado).
Para se ser feliz não precisamos de acrescentar nada, pelo contrário, temos de subtrair: largar imagens interiorizadas, despedir-nos de ideias pré-concebidas, soltar visões cristalizadas que infalivelmente deturpam, nos afastam do outro e da realidade, em suma, desaprender.
A felicidade é o nosso estado natural, se nos permitirmos dizer o grande Sim. Contudo…
Aderir incondicionalmente à realidade não é tão fácil, dado que as nossas imagens interiores estão sempre presentes, lutando contra a própria realidade e impedindo que ela nos sustente e que a ela nos entreguemos. (Joan Garriga, 2014)*
O apego às imagens é um estado emocional que nos faz acreditar que se a realidade não for de tal ou tal forma, não conseguiremos ser felizes; coloca-nos num estado de permanente reactividade, de divergência, que gera ainda mais imagens.
E como conseguimos passar de um estado ao outro? Pondo-nos em contacto com as nossas imagens interiores, relacionando-nos com as nossas experiências emocionais, sobretudo as mais sombrias.
Se conseguirmos afastar um pouco essas imagens interiores (abra-se parênteses, retirar-lhes o painel de controlo), a realidade vem ao nosso encontro tal qual como é e a todo o instante. (Ibid.)
Isto exige-nos um perseverante processo de tomada de consciência, portanto, de contacto com, e de desapego, na sequência do qual a mudança ocorre de modo natural e sem esforço, sobretudo sem o esforço da vontade.
E tomando-a [à realidade], agradecemos; e agradecendo a tomamos. E então estaremos profundamente de acordo em ser quem somos, tal como somos, a cada momento. E assim entregamo-nos e expandimo-nos cada vez mais e com isso servimos e sentimo-nos apoiados. (Ibid.)
Sábios, filósofos, teólogos e místicos de todos os quadrantes tentam ensinar-nos isto. Apenas podem apontar-nos a direcção, pois a vivência não se pode obter pelas palavras. Se assim fosse, mais não seria que (mais uma) programação.
O ponto de partida das constelações familiares é a projecção das imagens internas que a pessoa tem sobre as suas relações pessoais e sobre o lugar que ocupa nos pequenos grupos a que pertence. A mudança psicológica que o processo das constelações familiares põe em marcha ocorre por via da transformação das imagens internas. É uma experiência tocante, levando ao contacto com as imagens interiores, produz compreensão (muitas vezes súbita) do sentido de determinados comportamentos e situações repetitivas em que a infelicidade radica.
Nos dias 29 e 30 de Junho de 2024, Joan Garriga estará no Porto para conduzir um workshop de constelações intitulado “Constelar a Vida”, título também do seu mais recente livro - Constelar la Vida (2024) -, onde irá abordar os grandes temas da viagem da vida, as constantes que pautam a nossa viagem existencial: vínculo, reciprocidade nas relações e lugar de pertença de cada um.
Junte-se a nós nesta jornada de descoberta com este psicoterapeuta que com perspicácia e bom humor tão sabiamente facilita o trabalho da constelação.
Eva Jacinto, 05 Junho 2024
* Joan Garriga (2014). La llave de la buena vida. Saber ganar sin perderse a uno mismo y saber perder ganando a uno mismo. Ed. Destino. (Texto traduzido por Eva Jacinto)