Out 2, 2024 | Psicoterapia
Os grandes obstáculos às nossas realizações, à nossa liberdade e à satisfação com a vida com frequência derivam de nos quedarmos fixados a algo de passado.
Inquietações antigas – temores, ressentimentos, sentimentos de frustração – que nos mantêm zangados com a vida, muitas vezes numa espera estéril, em estados permanentes de medo ou numa crónica distração de si próprio.
Os anseios podem também assumir formas mais ternas, como por exemplo, esforços ou tentativas para ajudarmos os nossos pais, a nossa família ou os nossos conhecidos. Porque conferem um senso de virtude (ainda que cobiçosa), mais difícil se torna desenredar-se e assim persiste o alheamento de si próprio.
O processo psicológico pode descrever-se como se dentro de nós coexistissem vários eus, de diferentes etapas de vida, cada qual com os seus medos, reivindicações e decisões que estorvam. Permanecer capturado por um ou mais desses eus muitas vezes converte-se numa carga, uma carga que precisamos de soltar. Soltar a carga significa, e aqui está o busílis, apartar-se ou despedir-se de um dos eus que nos compõem.
Tal movimento de desprendimento às vezes só é possível através de um processo de conciliação com esse “eu antigo”. Como se ele amistosamente nos acenasse e dissesse “estou de acordo em deixar de fazer o resto do caminho contigo, não precisamos de continuar juntos”. Desta forma podemos deixar atrás partes que já não nos permitiam caminhar em direcção a mais, a mais de nós mesmos.
O que fazemos em psicoterapia? Criamos o contexto oportuno para escutar a teia dos nossos diferentes eus. E criamos condições para que algumas despedidas aconteçam.
A psicoterapia é um processo assistido, uma relação especial que ajuda a dirigir o conhecimento de si. Quando eficiente conduz a uma percepção mais clara sobre o que fazemos, como fazemos e sobre o que o motiva. Chegamos a uma compreensão sobre as respostas obsoletas que insistimos em utilizar. Esta compreensão opera uma transformação, leva à redução gradual do poder dessas respostas sobre as nossas intenções mais autênticas.
Gostaria contudo de enfatizar que apesar da situação especializada que a relação terapêutica pressupõe, é o indivíduo quem, em definitivo, realiza o trabalho de cura. O trabalho não pode prosseguir sem o seu intrínseco consentimento: para poder reconhecer a sua própria verdade (que lhe permite retirar as suas máscaras), para suster-se apesar do medo, da dor e do mal-estar que o processo possa nalguns momentos induzir. Também reconhecer que o desejo de uma mudança rápida é uma tentativa de auto-manipulação que visa o aperfeiçoamento precipitado de si, mas que perturba a grande aventura do resgate do seu ser.
Eva Jacinto
Porto, 01 Outubro 2024
Imagem: Dadu Shin, “Ripple”
Dez 5, 2022 | Psicoterapia
A psicoterapia procura promover no cliente o necessário contacto emocional que conduza a despertar nele a tendência inata para se actualizar, o que lhe permitirá desenvolver as suas potencialidades. O propósito é o de o fazer ampliar a sua capacidade para suprir as suas próprias necessidades e conseguir estabelecer relações pessoais que sejam satisfatórias.
O processo psicoterapêutico ocorre num contexto relacional empático, congruente e aceitante da realidade do cliente, ambiente relacional que o ajudará a desenvolver um sentido de autonomia, confiança e sentido de desenvolvimento pessoal.
No processo também se procura que o cliente amplie a sua capacidade de se dar conta: das dinâmicas relacionais em que se encontra envolvido, das sensações, sentimentos, crenças e expectativas, sobretudo as que resultam limitantes.
Procura-se ainda que aprenda a flexibilizar os seus modos de relação que possam ser rígidos e repetitivos, de tal forma que isso o leve de forma natural a contactar mais completamente com a sua experiência e a satisfazer as suas próprias necessidades. Também visa que a pessoa se auto-responsabilize pelas suas atitudes e comportamentos.
Em suma, pretende-se que através do processo e do diálogo se possa criar um ambiente terapêutico que permite à pessoa construir uma maneira de viver mais autêntica e satisfatória.
© Eva Jacinto
Nov 4, 2020 | Psicoterapia
Nascemos numa determinada família e nela despontamos num momento histórico do seu percurso de longas e sucessivas gerações. Não emergimos no vazio, mas num campo estruturado, onde os graus de liberdade não são infinitos. A história familiar prévia ao nosso nascimento encerra um campo relacional (também intergeracional) cujas forças nos submetem e condicionam. Não tivemos sobre isto qualquer escolha e na verdade nele nos inserimos com amor e devoção.
Por vezes a intensidade da vinculação aprisiona, geram-se situações de estagnação, dificuldades e sintomas que tomam conta de algumas ou até de todas as áreas da vida (trabalho, relações, saúde…), tornando necessário um trabalho psicoterapêutico. Temos alguma influência sobre o modo como nos deixamos reter nos enredos familiares, por vezes apenas precisamos de percepções criativas. Sermos capazes de ver como se ordenam os sistemas de relações em que estamos inseridos, ter uma imagem do conjunto entrelaçado de necessidades, é uma descoberta que por si só pode originar mudanças. Informados por essa percepção nova, espontaneamente somos levados a adoptar uma atitude diferente perante as pessoas que nos pertencem, perante as suas vidas e os seus destinos, movimentamo-nos em direcções novas e diferentes.

Um dos aspectos que com frequência se observa em psicoterapia, diz respeito ao facto de a pessoa se aferrar àquilo que acredita que não foi possível receber dos seus pais. Algumas pessoas chegam a afirmar “não és digno de ser meu pai/ minha mãe” ou “eu não tenho pai/ mãe, nunca quis saber de mim”.
Com esta atitude permanecem na ânsia de um dia poder, finalmente, reencontrar os pais idealizados. Profundamente capturados na sua mágoa, colocam a si mesmo poucas possibilidades: receber aquilo que sempre ansiaram ou cair num estado apático, reivindicativo, ou alternando entre estes extremos. Sob este estado de falta de, propicia-se o desenvolvimento de sintomatologia depressiva.
Aprender a desenredar-se daquilo que produz a mágoa passa, numa primeira fase do processo psicoterapêutico, pelo reconhecimento das necessidades e anseios próprios, que podem ser necessidades de pertença, de segurança, de confiança, de alcançar maior proximidade e afecto. Integrar essas ansiedades como parte de si é um passo inicial, mas decisivo, do trabalho pessoal de cura e crescimento.
O movimento seguinte e o de se conectar aos pais como fonte de vida. É um movimento complexo, exige labor psicoterapêutico, pode ser demorado, mas não conheço nenhum outro movimento mais rápido para resolver o problema, libertar do enredo, levar a abrir-se e viver de um modo mais criativo.
Eva Jacinto – Porto, 04.11.2020
Desenho: Lynne Hope
Jan 31, 2020 | Constelações familiares
Empatia, empatia cómoda e empatia sistémica.
Vídeo legendado em português.
Out 8, 2016 | Constelações familiares
PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE
Por Joan Garriga *
As grandes questões existenciais concernem a alma. Ultimamente tenho vindo a dizer que, de forma resumida, qualquer problema que enfrentamos na terapia está relacionado com o facto de existir algo que não somos capazes de amar ou de integrar, não somos capazes de lhe dar um bom lugar no coração. E isso tem consequências: adoecemos, aparecem os sintomas, as más relações, os problemas, etc.. Dizemos não a algo ou a alguém e retraímos a nossa alma, em vez de expandi-la. Este algo pode ser algo da realidade e dos factos, como o amigo que ficou doente, o pai que morreu, etc.. A Buda, por exemplo, morreu-lhe a mãe no seu terceiro dia de vida. Pode-se dizer “isto não deveria ter sido assim” e deste modo não podemos amar nem apreciar esta parte da realidade. Às vezes não podemos amar ou apreciar algo de nós próprios e dizemos: “não, eu não deveria ter esta timidez” ou “não, eu não deveria ter medo” ou “devia ser mais simpático” ou “devia ser mais bem-sucedido” e então, no fundo, consideramos que há partes de nós que não merecem ser respeitadas e estamos em luta com elas, ou seja, dizemos “não” e estamos numa guerra interior com nós próprios. Às vezes dizemos “não” às pessoas, dizemos “o meu pai portou-se mal comigo” e fechamos-lhe o coração ou “a minha avó pôs chifres ao meu avô” e fecho-lhe o meu coração ou “aquele meu amigo devia tratar-me da maneira X”. E então estamos numa guerra interpessoal. Quando olhamos para o fim dos problemas que surgem na terapia podemos sempre rastrear e encontrar algo a que a pessoa não pode dizer “sim”, diz-lhe “não”. Então aquilo de que se trata é conseguir uma maneira de fazer poder integrar aquilo que se rejeita e de se estender naquilo que fecha. E nesse sentido creio que a espiritualidade e a psicoterapia apontam na mesma direcção, mas isto muitos psicoterapeutas negam e diriam que a psicoterapia não tem nada a ver com a espiritualidade; sem dúvida que existem muitas técnicas que fazem com que algumas pessoas resolvam problemas e mudem e que pouco têm a ver com a espiritualidade. Embora, e na verdade se as analisarmos com precisão, vemos que no fundo quase sempre conduzem a uma maior assunção de responsabilidade das pessoas sobre a sua própria realidade. A terapia pode manipular o ego para afastá-lo daquilo que ele tem que enfrentar, mas trata-se de soluções passageiras e calmantes que duram apenas um tempo. A grande mudança, a que dura, muda algo de essencial na nossa atitude. Integra em vez de destruir, une em vez de separar, acolhe em vez de amputar. Diz “sim”.
* Joan Garriga In Sobre la Terapia y la Espiritualidad. Revista Conciencia Sin Fronteras, nº 34. Diálogo entre Joan Garriga y Julián Peragón.
Tradução do castelhano por Eva Jacinto
Pintura: Desabrochar, de Odilon Redon, 1910-14