No seio familiar há factos que magoam, debilitam, envergonham ou ferem e às vezes o sistema tenta proteger-se deles através do silêncio, relegando-os ao esquecimento; sem ter em conta que os silêncios têm consequências e obstam à força e à saúde do grupo, frequentemente comportando implicações e sacrifícios. É preciso integrar aquilo que magoou ou devastou, para que isso perca o seu poder e possa permanecer no passado. Todos vivemos não apenas na nossa individualidade, mas vinculados a redes – especialmente a familiar, ainda que existam outras – que nos influenciam e até nos governam, ainda que não as compreendamos. Nessas redes, o amor por si só não garante o bem-estar, o amor não é suficiente, ele necessita de ordem. O amor unido a essa ordem é aquilo que designamos por bom amor. O bom amor reconhece-se porque nos conduz ao bem-estar, à vida, ao benefício e à realização. O bom amor pressupõe que já evoluímos emocionalmente no sentido de respeitar e assentir ao que já se passou, aos dons e às feridas dos que nos precederam, em vez de nos enredarmos nestas últimas, repetindo-as ou mostrando aos nossos antepassados uma fidelidade mal compreendida através da nossa infelicidade. Assim, pois, o bom amor permite-nos avançar um pouco, no sentido de mais vida, tanto em termos de bem-estar como de felicidade. Um claro objectivo das constelações familiares é o de ordenar o amor, plasmá-lo numa boa geometria das relações humanas, que inclua todos sem excepção, igualmente dignos de respeito e de consideração, cada um no lugar vincular que lhe corresponde e nutrindo-se reciprocamente, de maneira que possam crescer em vez de sofrer. Esse é o bom amor que se estimula nas constelações familiares.
Joan Garriga (2020). Bailando Juntos. La cara oculta del amor en la pareja y en la familia. Ediciones Destino
Impressões sobre o workshop de Joan Garriga “Constelar a Vida” no Porto, nos dias 29 e 30 de Junho 2024.
Por dois dias suspendemos o quotidiano, imersos noutro mundo, mundos de outrem, onde nos reencontramos, recompondo e incorporando partes. Vivências de onde vamos saindo lentamente. De um workshop com esta intensidade raramente se sai dele no dia seguinte.
O magnetismo das constelações em parte está no facto de deixar uma impressão que não é meramente mental, fica gravada na emoção e no corpo, leva a uma compreensão que arrebata. Tal acontece no contacto com o que é doloroso. Quanto mais tentamos buscar fora de nós, tanto mais encadeados e cegos permanecemos, teimosamente evitando compreender que é no atravessar da dor que se pode tocar a felicidade. Somos sempre escravos daquilo de que não temos consciência. Tornando-nos conscientes, tornamo-nos livres, no sentido em que já não somos afectados por; a dor já não nos escraviza.
“Sofremos porque padecemos da falta de presença e porque há espaços vivenciais dentro de nós que estão excluidos ou escindidos da nossa atenção. Excluimos a tristeza ou a raiva; excluimos a dor pungente que sentimos face a um abuso; excluimos muitas coisas que percebemos como difíceis, dolorosas e desagradáveis ou que não encaixam com o que se espera de nós ou com a nossa auto-imagem idealizada. Excluímos também, afastando-as da nossa consciência, sensações corporais.” (Joan Garriga1)
E assim fomos constelando vidas neste workshop, pela impecável mão de Joan Garriga. Ali onde se cala, onde a dor não se sabe, onde não se vê a saída do labirinto, com amor, atenção e presença Garriga entra em ressonância, aponta cirurgicamente o que está escindido. E as frases surgem-lhe de forma natural e eficiente, incentivando o reconhecimento.
“Eu não faço constelações, acompanho o cliente durante a constelação”, afirmou Joan Garriga. As constelações em si não são nada, senão pelo diálogo que permitem estabelecer entre terapeuta e cliente: um meio de confrontar a identidade que se teceu na trama da rede dos vínculos de cada um; sondar a narrativa interiorizada, desconhecida de tão repetida. Acompanha o cliente ajudando-o a habitar-se mais completamente, conduzindo-o ao ponto onde pode crescer.
Por mais que se pretenda querer atribuir “causa sistémica” ao sofrimento (consistindo esta tentativa, muitas vezes, numa forma mais de distanciamento) é no próprio que a dor tem de fazer eco, ressoar até à sua assimilação.
Significa que o cliente em constelações, a pessoa que quer constelar uma questão pessoal, está disponível para este acto corajoso de prestar atenção às suas emoções, sensações e juízos e para suspender, ainda que temporariamente, os automatismos egóicos que lhe permitiram fintar a dor. E dando à dor utilidade, acolhe a oportunidade de compreender e crescer com ela. Por isso é tão importante ter clareza sobre o problema que se quer trabalhar, evitando cair em falsas memórias, auto-enganos e ideologias que afastam a verdade.
E “(…) que pode ser melhor para quem procura psicoterapia que esta forma de revelação súbita e minuciosa, sem ser descritiva. À semelhança do haiku, que Octavio Paz2 disse ser uma espécie de “poesia desenhada”, esta técnica revelava-se uma psicologia gráfica, convocando a um entendimento sincrético, poupando-nos o embaraço de explicações confusas, de intelectualizações. Fascinante!” (Eva Jacinto3).
1 Joan Garriga e David Barba (2024). Constelar la vida. Del amor ciego al amor lúcido. Ediciones Destino.
2 Octavio Paz e Eikichi Hayashiya (tradutores e editores) (1992). Matsuo Bashô. Sendas de Oku. Benrrido.
3 Eva Jacinto (2020). Transitando Consciências. Memória de Processo Pessoal de Aprendizagem para Aceder a Membro Facilitador Titular da AECFS – Asociación Española de Constelaciones Familiares y Sistémicas (não publicado).
Um workshop aberto a todos. Apropriado para pessoas interessadas no seu desenvolvimento pessoal, para pessoas que desejem trabalhar assuntos problemáticos das suas vidas, tais como dificuldades nos relacionamentos (familiares, de casal, laborais), temas relativos a doenças, luto, comportamentos aditivos, difíceis ou destrutivos, padrões de infelicidade, etc. Indicado também para pessoas que se dedicam a profissões de ajuda e que tenham interesse em aprender sobre a abordagem da visão sistémica e das constelações familiares com utilidade para o seu trabalho.
Brevemente estarão disponíveis as inscrições para o workshop de constelações familiares dirigido por Joan Garriga no Porto, nos dias 29 e 30 de Junho 2024.
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Há, portanto, uma dialéctica básica entre a realidade e o eu (ou a mente que se infiltra colonizando e tomando posse por completo do eu). É uma arte conseguir que essa dialéctica se converta num diálogo criativo e fértil que nos impulsione e nos leve por caminhos de alegria e não de infelicidade. Por caminhos de vida e não de morte. Joan Garriga (1)
Há precisamente uma semana, noventa e cinco pessoas vieram ao Porto para participar num workshop de constelações familiares, magistralmente conduzido por Joan Garriga – um dos psicólogos mais influentes em Espanha e na América Latina e um dos mais brilhantes psicoterapeutas a manejar esta ferramenta – constelações familiares. Noventa e cinco presentes, muitos mais os convocados. Com efeito, Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma? (O. Wilde, 2).
Com o que é que trabalhamos quando trabalhamos com as constelações familiares? Com enredos, implicações sistémicas, intricações despercebidas, férreas lealdades, desordens, realidades por integrar, interacções infelizes. Uma palavra que enquadre tudo isto – relações.
Segundo o dicionário, uma constelação é “um grupo de estrelas fixas que, ligadas por linhas imaginárias, formam também uma figura imaginária, a que corresponde um nome especial”(3). Continuando com a analogia, qual é aqui este nome especial? É o assunto-problema do cliente, tal como ele o configura (constela). O cliente tem de descrever o seu problema da forma o mais factual e concreta possível e plasmá-lo de forma espacial e corpórea. Através desta técnica, o cliente é convidado a sair dessa “caixa” de explicações, justificações e projecções que vai contando a si próprio e que o inebria. Por essa razão, vemos como com delicada firmeza e argúcia, Joan Garriga atalha sempre que o cliente quer descrever, com requintes de detalhe, o seu sofrimento, caracterizar o outro, contar-nos a sua narrativa da história do problema, a qual, se fosse fecunda, já o teria apartado do problema.
Trabalhando no aqui e agora da manifestação fenoménica, a técnica de Joan Garriga estimula a compreensão profunda e a transformação; não permite perder tempo com abstracções e intelectualizações, sabe levar o cliente a centrar-se no seu processo. Mas não é só o cliente que se entrega: todos os participantes se sentem estimulados a envolver-se activa (mas silenciosamente) nos processos que se desenrolam à sua vista, compreendendo e crescendo por processos de empatia e ressonância que impulsionam a reconhecer-se.
O campo vai permitindo a manifestação das dinâmicas. Uma espera atenta, a participação silenciosa de todos os presentes faz-se sentir, agora Joan opera como um transdutor: com inteligência e sensibilidade vai revelando os sentidos. Com mestria abre e mantém o diálogo com o cliente, aborda com perspicácia e muitas vezes com bom humor os assuntos que o cliente tem persistido em evitar.
Vários psicoterapeutas de renome têm afirmado que o instrumento mais importante de um terapeuta é a sua própria pessoa. Joan Garriga atingiu esse ponto que tal como Irvin Yalom (4) formula: estar familiarizado com o seu próprio lado obscuro, capacita para empatizar com todos os desejos e impulsos humanos. Por isso adoramos aprender, curar e crescer com Joan Garriga.
Nota final: sabemos como é agradável (e voyeurista) ver fotografias de eventos como este. No entanto, e considerando que somos uma comunidade pequena, parece-nos que perder esse pequeno prazer compensa face ao respeito e à protecção que as pessoas que tiveram a coragem de trabalhar o seu problema em grupo, merecem. Ao expor o seu problema ao grande grupo possibilitaram assim que muitas pessoas obtivessem benefícios através delas. Nunca é de mais agradecer-lhes, preservar a confidencialidade é imperioso. Por isso, não há fotografias de grupos de pessoas com caras alegres e felicidade estampada no rosto ou de representantes tomados pelo campo. Gostamos que seja assim.
EVA JACINTO, 05 Março 2023
Referências
1 Joan Garriga (2021). Decir Sí a la Vida. Ganar Fortaleza y Abandonar el Sufrimiento. Ediciones Destino
2 Oscar Wilde (1897). De Profundis. Relógio d’ Água (2001)
3 Novo Dicionário Lello da Língua Portuguesa (2011). Lello Editores
4 Irvin Yalom (2009). The Gift of Therapy. Harper Collins.
É com muita alegria que vemos que o público em Portugal se demonstra cada vez mais interessado e entusiasmado em conhecer o criterioso e profundo trabalho de Joan Garriga com a técnica das constelações familiares. Isto conduziu a que os lugares se vendessem mais cedo do que o esperado e a termos atingido já a lotação da sala.
Novas inscrições serão aceites e geridas de acordo com a ordem de entrada e as vagas que possam ir surgindo.