O “Sim à vida” através dos pais e através dos antepassados é, para muitos pacientes, um processo difícil. Alcança-se através do assentimento aos pais tal qual como eles são e assentindo também à história da família em cujo seio nascemos. Este processo é conseguido independentemente do contacto ou da qualidade da relação com os pais ou avós. Ele é também um processo possível para quem não conhece nem os seus pais, nem as suas famílias, já que nele se pode assentir à sua própria pessoa, ao seu destino pessoal e à situação de vida na qual se encontra. (…) A experiência mostra que frequentemente o primeiro passo para a solução de um problema ou para a cura de uma doença é o de assumir a parte de responsabilidade própria nesse tema. Segundo a minha observação, a força para este passo está relacionada com a disposição para assentir aos pais e à própria família de origem. Este “Sim” aos pais e à família é como um “Sim à vida” e para mim, como terapeuta, uma condição prévia para que eu concorde em realizar uma constelação com um paciente. A minha experiência no trabalho com constelações com doentes é a de quando um paciente não está disposto a dizer “Sim” à sua situação actual, frequentemente sequer está disposto, ou não é capaz de aceitar aquilo que na constelação se mostraria como movimento em direcção à solução. Nestas circunstâncias, trabalho primeiro a capacidade e a disposição do paciente para este “Sim”.
Texto extraído de Stephan Hausner (2011). Aunque me cueste la vida: Constelaciones sistémicas en casos de enfermedades y síntomas crónicos. Alma Lepik Editorial
As grandes questões existenciais concernem a alma. Ultimamente tenho vindo a dizer que, de forma resumida, qualquer problema que enfrentamos na terapia está relacionado com o facto de existir algo que não somos capazes de amar ou de integrar, não somos capazes de lhe dar um bom lugar no coração. E isso tem consequências: adoecemos, aparecem os sintomas, as más relações, os problemas, etc.. Dizemos não a algo ou a alguém e retraímos a nossa alma, em vez de expandi-la. Este algo pode ser algo da realidade e dos factos, como o amigo que ficou doente, o pai que morreu, etc.. A Buda, por exemplo, morreu-lhe a mãe no seu terceiro dia de vida. Pode-se dizer “isto não deveria ter sido assim” e deste modo não podemos amar nem apreciar esta parte da realidade. Às vezes não podemos amar ou apreciar algo de nós próprios e dizemos: “não, eu não deveria ter esta timidez” ou “não, eu não deveria ter medo” ou “devia ser mais simpático” ou “devia ser mais bem-sucedido” e então, no fundo, consideramos que há partes de nós que não merecem ser respeitadas e estamos em luta com elas, ou seja, dizemos “não” e estamos numa guerra interior com nós próprios. Às vezes dizemos “não” às pessoas, dizemos “o meu pai portou-se mal comigo” e fechamos-lhe o coração ou “a minha avó pôs chifres ao meu avô” e fecho-lhe o meu coração ou “aquele meu amigo devia tratar-me da maneira X”. E então estamos numa guerra interpessoal. Quando olhamos para o fim dos problemas que surgem na terapia podemos sempre rastrear e encontrar algo a que a pessoa não pode dizer “sim”, diz-lhe “não”.Então aquilo de que se trata é conseguir uma maneira de fazer poder integrar aquilo que se rejeita e de se estender naquilo que fecha. E nesse sentido creio que a espiritualidade e a psicoterapia apontam na mesma direcção, mas isto muitos psicoterapeutas negam e diriam que a psicoterapia não tem nada a ver com a espiritualidade; sem dúvida que existem muitas técnicas que fazem com que algumas pessoas resolvam problemas e mudem e que pouco têm a ver com a espiritualidade. Embora, e na verdade se as analisarmos com precisão, vemos que no fundo quase sempre conduzem a uma maior assunção de responsabilidade das pessoas sobre a sua própria realidade. A terapia pode manipular o ego para afastá-lo daquilo que ele tem que enfrentar, mas trata-se de soluções passageiras e calmantes que duram apenas um tempo. A grande mudança, a que dura, muda algo de essencial na nossa atitude. Integra em vez de destruir, une em vez de separar, acolhe em vez de amputar. Diz “sim”.
* Joan GarrigaInSobre la Terapia y la Espiritualidad. Revista Conciencia Sin Fronteras, nº 34. Diálogo entre Joan Garriga y Julián Peragón.
Tradução do castelhano por Eva Jacinto
Pintura: Desabrochar, de Odilon Redon, 1910-14