John O. Stevens (mais tarde conhecido como Steve Andreas) foi um importante terapeuta gestáltico americano, formador e autor. Nasceu em 1935 e faleceu em 2018. Fundou a editora Real People Press e é especialmente conhecido por trazer a terapia Gestalt para um público mais vasto, através de livros práticos e acessíveis cheios de exercícios vivenciais.
A obra El Darse Cuenta (originalmente Awareness: Exploring, Experimenting, Experiencing, de 1971) é um dos seus livros mais influentes. Nele, Stevens propõe uma abordagem centrada na consciência plena da experiência — sentir, imaginar e vivenciar — como caminho para um maior auto-conhecimento e integração pessoal.
O excerto que se segue é uma reflexão profunda e, por vezes, provocadora sobre o verdadeiro significado de “ajudar” os outros.
SOBRE PRESTAR AJUDA
Uma das maneiras mais comuns (e também mais aceites) de não respeitar uma pessoa — e a sua experiência — é correr para a ajudar quando ela se sente “mal” ou desconfortável. Ser “prestável” com atitudes protectoras, distracções ou diversões impede a pessoa de vivenciar plenamente a sua tristeza, cólera, solidão ou outros sentimentos difíceis.
Somente experimentando-os plenamente poderá aceitá-los, assimilá-los na totalidade da sua experiência de vida e desenvolver-se como um ser humano mais completo e integrado.
Quase sempre, o “ajudante” está, na realidade, a ajudar-se a si próprio ao ajudar os outros. Ao apressar-se com os seus primeiros-socorros, interrompe a expressão de sentimentos que são dolorosos para ele próprio. Além disso, convence-se (e convence os outros) de que é capaz de ajudar os outros e de que não precisa da ajuda de ninguém.
Quase todos os “ajudantes” têm fortes sentimentos de desamparo, que se atenuam temporariamente quando ajudam alguém. Isto é válido para uma grande parte das pessoas que exercem profissões de “ajuda”: professores, psicólogos e, especialmente, trabalhadores sociais. […]
Existe uma crença muito difundida segundo a qual uma pessoa que se encontra em dificuldades é fraca e necessita de ajuda. Num certo sentido, isso é verdade, na medida em que essa pessoa investe demasiada energia a manipular-se a si própria e a manipular os outros, convencendo-se e convencendo-os de que tem muito pouca energia para encarar directamente o mundo.
Se ajudarmos uma pessoa nestas condições, estamos a incentivá-la a acreditar que realmente precisa da nossa ajuda e a investir ainda mais energia para nos controlar, de forma a que corramos em seu socorro.
No entanto, se insistirmos para que ela faça um contacto mais profundo com a sua própria experiência, essa pessoa poderá aperceber-se da enorme quantidade de energia e poder que emprega para se manipular a si mesma e manipular os outros com o objectivo de obter ajuda. Uma vez assimilada essa energia, poderá aprender a utilizá-la de forma mais directa para a sua própria auto-sustentação. Pode dar-se conta de que é capaz de fazer muitas coisas por si própria, que antes precisava que os outros fizessem por ela.
Todas as pessoas dispõem de um enorme potencial em desuso. A maioria das pessoas é muito mais capaz, inteligente e forte do que elas próprias e os outros pensam. Uma grande parte da fraqueza, estupidez e loucura que existe no mundo não é real; trata-se, antes, de um jogo de representação do papel de fraco, de estúpido ou de louco.
John O. Stevens (2003). El Darse Cuenta: sentir, imaginar y vivenciar. Editorial Cuatro Ventos
Tradução por Eva Jacinto
Imagem: Alexandra Duprez