No seio familiar há factos que magoam, debilitam, envergonham ou ferem e às vezes o sistema tenta proteger-se deles através do silêncio, relegando-os ao esquecimento; sem ter em conta que os silêncios têm consequências e obstam à força e à saúde do grupo, frequentemente comportando implicações e sacrifícios. É preciso integrar aquilo que magoou ou devastou, para que isso perca o seu poder e possa permanecer no passado. Todos vivemos não apenas na nossa individualidade, mas vinculados a redes – especialmente a familiar, ainda que existam outras – que nos influenciam e até nos governam, ainda que não as compreendamos. Nessas redes, o amor por si só não garante o bem-estar, o amor não é suficiente, ele necessita de ordem. O amor unido a essa ordem é aquilo que designamos por bom amor. O bom amor reconhece-se porque nos conduz ao bem-estar, à vida, ao benefício e à realização. O bom amor pressupõe que já evoluímos emocionalmente no sentido de respeitar e assentir ao que já se passou, aos dons e às feridas dos que nos precederam, em vez de nos enredarmos nestas últimas, repetindo-as ou mostrando aos nossos antepassados uma fidelidade mal compreendida através da nossa infelicidade. Assim, pois, o bom amor permite-nos avançar um pouco, no sentido de mais vida, tanto em termos de bem-estar como de felicidade. Um claro objectivo das constelações familiares é o de ordenar o amor, plasmá-lo numa boa geometria das relações humanas, que inclua todos sem excepção, igualmente dignos de respeito e de consideração, cada um no lugar vincular que lhe corresponde e nutrindo-se reciprocamente, de maneira que possam crescer em vez de sofrer. Esse é o bom amor que se estimula nas constelações familiares.
Joan Garriga (2020). Bailando Juntos. La cara oculta del amor en la pareja y en la familia. Ediciones Destino
Joan Garriga – Excerto do artigo EL ARTE DEL BUEN AMOR
Publicado no jornal La Vanguardia em 12-06-2013
Ao trabalhar com os problemas das pessoas, descobrimos que muitas não se assentam naquilo que lhes vem dos pais (os quais simbolizam a vida), preferindo recusar-se a tomar o que receberam, pensando que assim se resguardam daquilo que lhes parece ser negativo. No entanto, dessa forma raramente se encontram em paz consigo próprias e com a vida, não dando aquilo que têm para dar. Em vez disso, empobrecem-se e limitam-se, colocam-se em posições de vitimização ou de ressentimento ou outras posições de sofrimento. Tomar o que vem dos pais, mesmo que isso inclua feridas dolorosas, e trabalhar emocionalmente sobre isso parece funcionar como uma espécie de salvo-conduto para alcançar o bom amor e também como um antídoto contra muitos males: induz-nos a assumir a responsabilidade pela nossa própria vida e a renunciar a jogar jogos psicológicos invalidantes, cheios de sofrimento, por exemplo, com o nosso cônjuge, com os filhos ou com o contexto profissional.
Em relação aos nossos iguais, a regra é a de manter as relações equilibradas, garantir a paridade e a igualdade de posição. Damos, tomamos, compensamos, equilibramos e somos livres. E se continuamos juntos, é fazendo uso da nossa liberdade e não por nos sentirmos em dívida ou como credores. É um clássico nos conflitos de casal, onde costuma haver desequilíbrios na relação, de tal maneira que um dos membros pode sentir-se devedor ou credor e depois já não conseguem olhar-se nos olhos um do outro com confiança e abertura do coração.
Em suma, ajuda muito às pessoas e às famílias que haja uma ordem: ordenar o amor, plasmá-lo numa boa geometria das relações humanas, na qual todos sem excepção estejam incluídos e igualmente dignos de respeito e de consideração, cada um no lugar exacto que lhe corresponde e nutrindo-se uns aos outros de tal maneira que consigam crescer em vez de sofrer. Aqui está, pois, o bom amor.