Qual é então o sentido do casal? Por que razão somos impulsionados para ele? O que é que é possível viver, dar, esperar e obter da relação de casal?
Como já expliquei, uma das necessidades mais profundas dos seres humanos é a necessidade de pertencer, de estar em contacto, de sentir-se amorosamente unido com outras pessoas. Somos impulsionados para a relação de casal em primeira instância porque somos mamíferos e necessitamos do toque, do calor; porque somos seres vinculares, empáticos, amorosos, generosos e ao mesmo tempo necessitados. De sorte que vivemos habitualmente num estado de carência, de falta, ao mesmo tempo que de abundância e grandeza,albergamos o desejo e a esperança de dar e receber e de encontrar através do outro um caminho de companhia e um aconchego existencial que nos nutra.
Se fossemos crocodilos, répteis de sangue frio, as nossas necessidades seriam outras, mas para um mamífero não há maior necessidade do que a de fazer parte de um colectivo e estar em contacto com outras pessoas. Ainda que talvez nada nos falte sob uma perspectiva espiritual, no plano das paixões humanas há algo que tem de ser acalmado, liberado ou preenchido: necessitamos encontrar a plenitude nas nossas relações e acalmar a nossa sede de dar e receber amor. Isto permite-nos transcender o eu: passar ao nós, à união.
Joan Garriga In El Buen Amor en la Pareja (2013). Ediciones Destino.
Joan Garriga – Excerto do artigo EL ARTE DEL BUEN AMOR
Publicado no jornal La Vanguardia em 12-06-2013
Ao trabalhar com os problemas das pessoas, descobrimos que muitas não se assentam naquilo que lhes vem dos pais (os quais simbolizam a vida), preferindo recusar-se a tomar o que receberam, pensando que assim se resguardam daquilo que lhes parece ser negativo. No entanto, dessa forma raramente se encontram em paz consigo próprias e com a vida, não dando aquilo que têm para dar. Em vez disso, empobrecem-se e limitam-se, colocam-se em posições de vitimização ou de ressentimento ou outras posições de sofrimento. Tomar o que vem dos pais, mesmo que isso inclua feridas dolorosas, e trabalhar emocionalmente sobre isso parece funcionar como uma espécie de salvo-conduto para alcançar o bom amor e também como um antídoto contra muitos males: induz-nos a assumir a responsabilidade pela nossa própria vida e a renunciar a jogar jogos psicológicos invalidantes, cheios de sofrimento, por exemplo, com o nosso cônjuge, com os filhos ou com o contexto profissional.
Em relação aos nossos iguais, a regra é a de manter as relações equilibradas, garantir a paridade e a igualdade de posição. Damos, tomamos, compensamos, equilibramos e somos livres. E se continuamos juntos, é fazendo uso da nossa liberdade e não por nos sentirmos em dívida ou como credores. É um clássico nos conflitos de casal, onde costuma haver desequilíbrios na relação, de tal maneira que um dos membros pode sentir-se devedor ou credor e depois já não conseguem olhar-se nos olhos um do outro com confiança e abertura do coração.
Em suma, ajuda muito às pessoas e às famílias que haja uma ordem: ordenar o amor, plasmá-lo numa boa geometria das relações humanas, na qual todos sem excepção estejam incluídos e igualmente dignos de respeito e de consideração, cada um no lugar exacto que lhe corresponde e nutrindo-se uns aos outros de tal maneira que consigam crescer em vez de sofrer. Aqui está, pois, o bom amor.
…num recente seminário internacional, em Bad Reichenhall (Alemanha), disserta sobre a atribuição de culpa e a assunção do papel de inocente.
Quem se eleva ao estatuto de inocente, sentindo-se continuamente prejudicado e reclamando continuamente por reparação, coloca-se numa posição de poder, que lhe confere o senso de sentir-se sempre desobrigado de amar e respeitar.
Um jogo interminável e perigoso.
(vídeo em alemão com tradução simultânea em inglês)