Entre os dias 5 e 7 de Junho 2026 tivemos a alegria de receber Joan Garriga no Porto para um workshop de Constelações Familiares e Gestalt. Durante meses preparámos este encontro, mas agora que passaram já alguns dias e a intensidade do momento assentou, dou por mim a revisitar imagens, conversas, emoções e, sobretudo, algumas das ideias-força que continuam em mim a sua dança compassada entre assimilar e acomodar.

O título escolhido para o workshop foi “Assentimento é Felicidade”. A expressão surge no livro de  Joan Garriga “Viver na Alma”, quando faz referência a Arnaud Desjardins, escritor, cineasta e mestre espiritual francês, que afirmava “Oposição é sofrimento”. Joan vira esta frase do avesso, resultando na sua contraparte luminosa: “Assentimento é felicidade”. Simples e genial! 

Quando li esta formulação pela primeira vez, senti que ela captava de forma certeira o espírito do trabalho que atravessa as constelações familiares. Na verdade, não apenas as constelações, mas qualquer processo autêntico, terapêutico ou não, de transformação pessoal.

Grande parte do nosso sofrimento nasce da oposição e exclusão: excluímos (ou pretendemos excluir) emoções, experiências, traços da nossa personalidade, partes da nossa história, aspectos da nossa família. Procuramos rejeitar ou corrigir aquilo que julgamos inadequado. Em suma, desejamos que a realidade (interna e externa) seja diferente daquilo que é, actuando numa lógica de oposição que nos aparta dela.

E a consequência dessa oposição não é a dor, posto que a vida inevitavelmente nos trará motivos de dor - perdas, frustrações, situações inesperadas e difíceis -, mas sofrimento, dor que se prolonga no tempo. “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”, disse Buda há mais de 2500 anos.

Um aspecto chave do trabalho terapêutico, ou de transformação, consiste precisamente em “interromper” movimentos de exclusão e de oposição: integrar, incluir, tomar, aceitar, reconhecer são processos básicos desse caminho.

E neste workshop trabalhámos de forma intensiva o assentimento a nós próprios, à nossa realidade interna. Ao longo das diferentes vivências, tornou-se evidente a importância de acolher as emoções que nos visitam e de reconhecer todos os eus que nos habitam, pacientemente tornando o mosaico mais completo.

O não-assentimento à realidade — ou, como refere Joan Garriga, os “transtornos do assentimento” — tem um grande companheiro de lides: a capacidade de falsear, de construir personagens e narrativas que nos “suportam” e dão forma ao ego. E entregamo-nos de tal forma a esse personagem, identificamo-nos tão profundamente com essa identidade fabricada que nos perdemos de nós próprios.

Recuperar a autenticidade e a presença é um exercício de assentimento a tudo o que sentimos, incluir todos os aspectos e personas que nos habitam. A presença e a capacidade de estar e desfrutar da vida cresce com a aceitação de tudo o que nos visita: “A presença e o poder pessoal crescem quando aceitamos tudo o que vive dentro de nós” (Garriga, Constelar la Vida).

Abandonar idealizações, dar lugar à nossa dor e à nossa vulnerabilidade, incluir emoções contraditórias para finalmente nos podermos ver e reconhecer na nossa biografia - tudo isto são movimentos de assentimento. E isso exige atravessar territórios difíceis.

Exige atravessar a tristeza em vez de a evitar. Exige olhar para perdas que continuam por integrar. Exige reconhecer aspectos de nós próprios que preferíamos esconder. Exige aceitar que algumas feridas não desaparecem apenas porque queremos que desapareçam ou que a realidade não nos faz a vontade, que ela é soberana.

Claro que essas identidades postiças que construímos começaram por ser estratégias para tentar proteger-nos e acabaram por ser tão eficazes nesse intento, que perseveramos nelas e acabamos por viver através de versões empobrecidas de nós mesmos. Saturamo-nos de ideias, explicações e estratégias, enquanto perdemos contacto com aquilo que efectivamente sentimos, pensamos e experimentamos.

grupo no Porto a trabalhar durante o workshop JGarriga 2026

Durante o workshop, veio-me várias vezes à memória uma passagem de Friedrich Nietzsche que expressa de forma extraordinária este movimento interior:

"Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas; assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor. Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar. E, tudo somado e em suma: quero ser algum dia apenas alguém que diz Sim.” (Nietzsche, A Gaia Ciência).

Talvez seja esta uma das mais belas definições de maturidade humana. Não a procura incessante de uma vida sem dor, mas a capacidade crescente de dizer "sim" ao que a vida traz, mesmo quando desafia as nossas preferências, expectativas ou ideais. E isso pressupõe abandonar narrativas, por isso tal como Joan Garriga enfaticamente afirmou: “a melhor narrativa é a não-narrativa”.

No final destes três dias intensos ficou a sensação de que o assentimento não é um objectivo a alcançar, mas uma prática permanente. Um exercício quotidiano. Um acto de humildade. E talvez, também, uma das formas mais profundas de liberdade.

Eva Jacinto